Índice
- Guia de Referência para o Teste de Decantação Acelerado (24h)
- A Natureza da Instabilidade em Sistemas Dispersos: Fundamentos Teóricos
- O Teste de Decantação no Ecossistema de Estudos de Estabilidade
- Protocolo de Execução: Um Guia Passo a Passo Detalhado
- Registro Sistemático e Análise de Resultados
- Decodificando os Resultados: Da Observação ao Diagnóstico
- Estabelecimento de Critérios de Aceitação e Ações Corretivas
Guia de Referência para o Teste de Decantação Acelerado (24h)
Protocolo, Análise e Interpretação da Estabilidade Físico-Química
A Natureza da Instabilidade em Sistemas Dispersos: Fundamentos Teóricos
A estabilidade de produtos como emulsões e suspensões é um desafio constante para formuladores e analistas de qualidade. Estes sistemas, que envolvem a dispersão de uma fase (líquida ou sólida) em outra, são, por sua natureza, termodinamicamente instáveis. O teste de decantação de 24 horas serve como uma janela crucial para observar as manifestações macroscópicas desta instabilidade, permitindo um diagnóstico rápido e eficaz da robustez de uma formulação. Compreender os princípios físico-químicos que governam este comportamento é fundamental para interpretar corretamente os resultados do teste.
1.1 A Instabilidade Termodinâmica Inerente
Emulsões (líquido em líquido) e suspensões (sólido em líquido) são sistemas de alta energia. A criação de uma vasta área interfacial entre as fases dispersa e contínua representa um estado energeticamente desfavorável. A tendência natural e espontânea de qualquer sistema físico é evoluir para um estado de menor energia. No caso de uma emulsão de óleo em água, por exemplo, o estado de menor energia é a completa separação das fases, minimizando a área de contato entre o óleo e a água.
Portanto, do ponto de vista termodinâmico, todas as emulsões e suspensões são inerentemente instáveis. O objetivo de um formulador não é alcançar a estabilidade termodinâmica, o que é impossível, mas sim a estabilidade cinética. A estabilidade cinética refere-se à capacidade de uma formulação resistir à separação de fases por um período de tempo aceitável e prático, que corresponde à sua vida útil ou prazo de validade. O teste de decantação é uma ferramenta para avaliar quão bem uma formulação atinge essa estabilidade cinética sob a influência da gravidade.
1.2 Mecanismos de Separação Gravitacional: Cremeação vs. Sedimentação
A força da gravidade atua incessantemente sobre as partículas ou gotas dispersas, impulsionando a separação. Dependendo da diferença de densidade entre as fases, essa separação se manifesta de duas formas principais:
- Cremeação (Creaming): Ocorre quando a fase dispersa é menos densa que a fase contínua. As gotas ou partículas migram para cima, formando uma camada concentrada na superfície do produto. Um exemplo clássico é a formação da camada de nata no topo do leite não homogeneizado.
- Sedimentação: Ocorre quando a fase dispersa é mais densa que a fase contínua. As partículas ou gotas migram para baixo, acumulando-se no fundo do recipiente. Exemplos comuns incluem pigmentos em tintas ou princípios ativos em suspensões farmacêuticas.
É crucial notar que, em seus estágios iniciais, tanto a cremeação quanto a sedimentação são fenômenos potencialmente reversíveis. Uma agitação suave pode ser suficiente para redispersar as fases e restaurar a homogeneidade do produto. O teste de 24h permite observar a velocidade e a extensão com que esses processos ocorrem em repouso.
1.3 A Física da Separação: A Lei de Stokes em Foco
A velocidade com que a cremeação ou a sedimentação ocorre pode ser descrita matematicamente pela Lei de Stokes. Embora possua limitações (assume partículas esféricas e baixas concentrações), ela fornece um modelo conceitual inestimável para entender os fatores que governam a estabilidade física. A equação é expressa como:
Onde:
Vs é a velocidade de sedimentação (ou cremeação).
r é o raio da partícula ou gota dispersa.
g é a aceleração da gravidade.
ρp é a densidade da fase dispersa (partícula).
ρf é a densidade da fase contínua (fluido).
η é a viscosidade da fase contínua.
O teste de decantação de 24 horas é, essencialmente, uma observação macroscópica da Lei de Stokes em ação. Cada parâmetro da equação representa uma alavanca que o formulador pode usar para controlar a estabilidade e uma pista para diagnosticar a instabilidade:
- Raio da partícula (r): Este é o fator mais crítico, pois sua influência é quadrática (r²). Dobrar o raio da partícula aumenta a velocidade de separação em quatro vezes. Isso explica por que fenômenos que aumentam o tamanho das partículas, como a coalescência, são tão prejudiciais à estabilidade.
- Diferença de densidade (ρp - ρf): É a força motriz fundamental para a separação gravitacional. Quanto maior a diferença entre as densidades das fases, mais rápida será a separação.
- Viscosidade da fase contínua (η): Esta é a principal ferramenta do formulador para retardar a separação. Ao aumentar a viscosidade do meio, o movimento das partículas é dificultado, reduzindo Vs.
1.4 Fenômenos Irreversíveis: Floculação e Coalescência
Enquanto a cremeação e a sedimentação podem ser reversíveis, outros mecanismos de instabilidade levam a uma degradação permanente do produto. É vital distinguir entre eles:
- Floculação: É a aglomeração de partículas ou gotas para formar agregados frouxos, ou "flocos". As partículas individuais mantêm sua integridade e o filme interfacial não é rompido. A floculação é frequentemente um precursor de instabilidades mais graves e pode ser reversível em alguns casos.
- Coalescência: É a fusão de duas ou mais gotas para formar uma gota maior. Este processo é irreversível e representa a quebra do filme interfacial que estabiliza a emulsão. A coalescência leva a um aumento dramático no raio médio das gotas (r), o que, conforme a Lei de Stokes, acelera exponencialmente a separação de fases, culminando na quebra completa da emulsão.
Existe uma hierarquia de falha: a separação gravitacional (cremeação/sedimentação) é um sintoma visível, enquanto a coalescência e a floculação são as doenças subjacentes. Um teste de 24h bem interpretado pode ajudar a diagnosticar se a falha reside na barreira interfacial (um problema do emulsificante) ou na reologia da fase contínua (um problema do espessante), orientando assim as ações corretivas.
1.5 O Papel dos Componentes da Formulação na Estabilidade
Para combater esses mecanismos de instabilidade, os formuladores utilizam diversos ingredientes:
- Agentes Emulsificantes/Surfatantes: Moléculas anfifílicas que se posicionam na interface óleo-água, reduzindo a tensão interfacial e formando uma barreira física que previne a coalescência.
- Potencial Zeta: Em sistemas iônicos, os emulsificantes podem conferir uma carga elétrica à superfície das gotas. Gotas com cargas semelhantes se repelem eletrostaticamente, prevenindo a aproximação e a floculação. Um alto valor de potencial zeta (positivo ou negativo) é um indicador de boa estabilidade eletrostática.
- Modificadores de Reologia (Espessantes): Polímeros que aumentam a viscosidade (η) da fase contínua. Conforme a Lei de Stokes, isso retarda fisicamente o movimento das gotas ou partículas, inibindo a cremeação e a sedimentação.
O Teste de Decantação no Ecossistema de Estudos de Estabilidade
O teste de decantação de 24 horas é uma ferramenta valiosa, mas sua eficácia depende do entendimento de seu papel específico dentro de um programa abrangente de avaliação de estabilidade. Ele não é um teste isolado, mas sim uma peça de um quebra-cabeça maior que, quando montado corretamente, fornece uma imagem clara da robustez e da vida útil de um produto.
2.1 Uma Ferramenta de Triagem Rápida (Screening)
A principal função do teste de 24h é servir como um Teste de Estabilidade Preliminar ou de triagem. Na fase de pesquisa e desenvolvimento (P&D), quando múltiplas variações de uma fórmula estão sendo consideradas, é impraticável submeter todas a estudos de longa duração. O teste de decantação permite uma avaliação rápida da estabilidade física sob a influência da gravidade. Seu objetivo é eliminar rapidamente formulações claramente inviáveis, permitindo que os esforços e recursos se concentrem nas candidatas mais promissoras.
2.2 Distinção Crucial: Estabilidade Acelerada vs. Longa Duração (Prateleira)
É importante não confundir o teste de decantação de 24h com outros tipos de estudos de estabilidade:
- Teste de Estabilidade Acelerada: Estes estudos são projetados para prever a vida útil de um produto em um curto período, submetendo-o a condições de estresse, como temperaturas elevadas (por exemplo, 40°C ou 45°C) e umidade controlada. A alta temperatura acelera as reações de degradação química e as mudanças físicas, permitindo uma estimativa do prazo de validade. O teste de decantação de 24h pode ser considerado uma forma muito "suave" de aceleração, onde o único estresse aplicado é a força constante da gravidade em um sistema em repouso.
- Teste de Estabilidade de Longa Duração (Shelf Life): Este é o padrão-ouro para determinar o prazo de validade. O produto é armazenado em condições normais de mercado (temperatura e umidade ambiente) e monitorado ao longo de todo o período de validade pretendido. Os resultados deste teste são os únicos que validam e confirmam definitivamente a estabilidade do produto ao longo do tempo.
O teste de decantação de 24h, portanto, não substitui esses estudos mais aprofundados, mas os complementa, fornecendo um primeiro veredito sobre a estabilidade física.
2.3 Aplicações Práticas do Teste de 24h
- Em P&D: É ideal para comparar rapidamente a estabilidade de múltiplas variantes de formulação. Por exemplo, um químico pode avaliar o impacto de diferentes tipos de emulsificantes, concentrações de espessantes ou ordens de adição dos ingredientes, obtendo feedback em apenas um dia.
- Em Controle de Qualidade (CQ): Pode ser usado como um teste rápido de liberação de lote. Se um lote de produção falhar em um teste que lotes anteriores passaram consistentemente, isso pode indicar um desvio significativo no processo de fabricação, na qualidade de uma matéria-prima ou um erro de pesagem.
O teste de decantação de 24h funciona como um filtro de risco. Ele não pode garantir que um produto que passa no teste será estável a longo prazo, mas pode afirmar com alta confiança que um produto que falha será instável. Sua força reside em seu poder preditivo negativo: ele é excelente para identificar falhas, não para garantir sucessos. Um produto que passa ainda requer testes mais rigorosos, mas um que falha pode ser imediatamente descartado ou reformulado, otimizando o fluxo de trabalho do laboratório.
2.4 Limitações e o Que o Teste de 24h Não Pode Prever
Conhecer as limitações do teste é tão importante quanto conhecer suas aplicações:
- Instabilidade Química e Microbiológica: O teste é puramente físico. Ele não detectará a degradação de ingredientes ativos, mudanças de cor devido à oxidação, alterações de odor ou contaminação microbiológica.
- Fenômenos de Longo Prazo: O período de 24 horas é muito curto para detectar mecanismos de instabilidade lentos, como o Amadurecimento de Ostwald, onde moléculas da fase dispersa se dissolvem na fase contínua e se redepositam em gotas maiores. Este é um processo que pode levar semanas ou meses para se tornar visível.
- Impacto da Embalagem: O teste é tipicamente realizado em provetas de vidro. Ele não pode prever interações potenciais entre o produto e sua embalagem final (por exemplo, adsorção de ingredientes pelo plástico, corrosão de componentes metálicos ou lixiviação de substâncias da embalagem para o produto).
Protocolo de Execução: Um Guia Passo a Passo Detalhado
A reprodutibilidade é a chave para a utilidade de qualquer teste analítico. Para o teste de decantação, a adesão estrita a um protocolo padronizado minimiza a variabilidade e garante que os resultados sejam comparáveis entre diferentes amostras e diferentes momentos. A maior fonte de erro não reside na leitura da proveta, mas na inconsistência do procedimento.
3.1 Materiais e Equipamentos
- Proveta Graduada com Rolha (100 mL): O instrumento principal. Deve ser de vidro transparente, com graduações claras e fáceis de ler. A limpeza impecável é essencial para evitar a nucleação de gotas nas paredes. A rolha (de vidro ou material inerte) é necessária para a etapa de homogeneização.
- Béquer: Para a coleta e homogeneização inicial da amostra.
- Bastão de vidro ou espátula: Para garantir que a amostra a granel esteja homogênea antes da amostragem.
- Cronômetro ou relógio: Para registrar os tempos de observação com precisão.
- Câmera fotográfica: Altamente recomendada para o registro visual objetivo das amostras em diferentes momentos.
- Etiquetas e caneta marcadora: Para a identificação clara e inequívoca das amostras.
- Superfície plana e nivelada: Essencial para garantir que a separação gravitacional ocorra de maneira uniforme.
3.2 Preparação da Amostra (Ponto Crítico de Controle)
Esta é a etapa mais crítica para garantir resultados significativos.
- Amostragem Representativa: A amostra retirada para o teste deve ser representativa de todo o lote. Antes de coletar a amostra, o lote de produção ou o recipiente de laboratório deve ser completamente homogeneizado para garantir que qualquer separação que já tenha ocorrido seja desfeita.
- Homogeneização Pré-teste: Imediatamente antes de preencher a proveta, a amostra coletada no béquer deve passar por um procedimento de homogeneização padronizado. Recomenda-se um número fixo de inversões suaves (por exemplo, 10 inversões completas de 180 graus). A agitação vigorosa deve ser evitada, pois pode incorporar bolhas de ar que interferem na separação ou pode temporariamente quebrar flocos, mascarando uma instabilidade de floculação.
3.3 Procedimento de Ensaio
Passo 1: Identificação. Etiquetar a proveta de forma clara e completa com: Nome do Produto, Número do Lote/Identificação da Amostra, Data e Hora de Início (T=0).
Passo 2: Preenchimento. Verter cuidadosamente a amostra pré-homogeneizada na proveta até a marca de 100 mL. Evitar respingos nas paredes superiores da proveta, pois isso pode dificultar as leituras.
Passo 3: Leitura Inicial (T=0). Imediatamente após o preenchimento, colocar a proveta na superfície nivelada. Esta é a sua linha de base. Realize a primeira leitura e registro. É fundamental fotografar a amostra em T=0, preferencialmente contra um fundo de cor contrastante para facilitar a visualização de futuras mudanças.
Passo 4: Armazenamento. Manter a proveta em um local com condições ambientais controladas e constantes. A temperatura deve ser a ambiente (por exemplo, 25 ± 2° C), e o local deve ser isento de vibrações, luz solar direta ou correntes de ar. Qualquer perturbação pode afetar o processo de decantação.
Passo 5: Observações Programadas. Realizar e registrar as observações nos seguintes intervalos de tempo (ou outros, conforme definido pelo procedimento interno): T=1h, T=4h, T=8h, T=12h e T=24h. É de extrema importância não mover ou perturbar a proveta entre as leituras.
3.4 O Que Observar em Cada Leitura
Cada observação deve incluir uma análise quantitativa e qualitativa.
Análise Quantitativa:
Medir o volume, em mililitros (mL), de qualquer fase que tenha se separado. Isso pode ser uma camada de creme ou óleo no topo (cremeação) ou uma camada de sedimento ou líquido claro no fundo (sedimentação/sinérese). A leitura é feita diretamente na escala graduada da proveta.
Análise Qualitativa:
Descrever a aparência geral do sistema. As anotações devem ser detalhadas e consistentes.
- Interface: A linha que separa as fases é nítida e bem definida, ou é difusa e turva?
- Fase Separada: A camada separada é transparente, turva, opaca, oleosa?
- Fase Principal: O corpo da amostra permanece homogêneo, ou há sinais de floculação (formação de agregados visíveis)?
- Paredes da Proveta: Há gotas da fase dispersa aderindo às paredes de vidro? Isso pode ser um sinal de coalescência iminente.
Registro Sistemático e Análise de Resultados
A transformação de observações visuais em dados objetivos e analisáveis é o que confere poder ao teste de decantação. Um registro sistemático é a ponte entre o que se vê e o que se entende. A solicitação por um "passo a passo simples para registrar resultados" é atendida pela implementação de uma folha de registro padronizada.
4.1 A Importância do Registro Detalhado
Registros completos e consistentes são a base para a tomada de decisões informadas. Eles permitem :
- Rastreabilidade: Conectar um resultado a um lote específico, data e analista.
- Comparabilidade: Comparar objetivamente a estabilidade de diferentes formulações ou diferentes lotes do mesmo produto.
- Análise de Tendências: Identificar se a estabilidade de um produto está se alterando ao longo do tempo.
4.2 A Folha de Registro do Teste de Decantação (24h)
A utilização de uma tabela padronizada como a apresentada abaixo garante que todos os parâmetros relevantes sejam registrados de forma consistente em cada ponto de tempo. Esta ferramenta estrutura a coleta de dados, forçando o observador a ser metódico e a registrar tanto os dados quantitativos quanto os qualitativos, que são cruciais para um diagnóstico preciso.
Informações da Amostra
Nome do Produto: __________________________
Lote / ID da Amostra: __________________________
Data do Teste: __________________________
Analista: __________________________
Condições de Armazenamento: Temperatura Ambiente (25 ± 2° C), ausência de luz direta
| Tempo (h) | Vol. Fase Separada (mL) | % Separação | Local da Separação (Topo/Fundo) | Descrição da Interface (Nítida/Difusa) | Aparência da Fase Separada (Transparente/Turva/Oleosa) | Observações Gerais | ID da Foto |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| T=0 | 0 | 0% | N/A | N/A | N/A | Aparência inicial homogênea e opaca. | FOTO-01 |
| T=1 | |||||||
| T=4 | |||||||
| T=8 | |||||||
| T=12 | |||||||
| T=24 | FOTO-02 |
4.3 Análise Quantitativa: Cálculo do Índice de Instabilidade
O dado quantitativo mais importante é a porcentagem de separação, que normaliza o resultado e facilita a comparação. O cálculo é simples:
Para uma amostra de 100 mL, o volume medido em mL é diretamente a porcentagem de separação. Plotar a % Separação em função do Tempo (h) em um gráfico pode revelar informações valiosas sobre a cinética da instabilidade. Uma curva que sobe rapidamente e depois se estabiliza indica um processo de separação rápido que atinge um equilíbrio, enquanto uma curva que continua a subir linearmente ao longo das 24 horas sugere um processo de instabilidade contínuo e mais problemático.
4.4 O Poder da Documentação Visual
Uma imagem vale mais que mil palavras, especialmente na avaliação da estabilidade. Recomenda-se fortemente a criação de um arquivo fotográfico para cada teste, com fotos padronizadas em T=0 e T=24h. As fotografias servem como uma prova visual irrefutável da estabilidade (ou instabilidade) e são ferramentas de comunicação extremamente eficazes em relatórios, apresentações e discussões técnicas.
Decodificando os Resultados: Da Observação ao Diagnóstico
Com os dados sistematicamente registrados, o próximo passo é a interpretação. Esta seção traduz as observações brutas em um diagnóstico significativo sobre a saúde da formulação, conectando os sintomas visuais (o que foi visto na proveta) às causas físico-químicas subjacentes discutidas na Seção 1.
5.1 Interpretando a Velocidade de Separação
A cinética da separação, ou seja, a rapidez com que ela ocorre, é a primeira pista para o diagnóstico:
- Separação Rápida (visível nas primeiras 1-4 horas): Geralmente indica uma instabilidade grosseira. As causas prováveis incluem um tamanho de partícula inicial muito grande, uma diferença de densidade muito significativa entre as fases, ou uma viscosidade da fase contínua extremamente baixa. A formulação carece de mecanismos básicos de estabilização.
- Separação Lenta e Progressiva (evoluindo ao longo de 24 horas): Sugere uma instabilidade mais sutil. Pode estar relacionada a uma floculação lenta que, ao formar agregados maiores, acelera a sedimentação, ou a uma coalescência gradual que aumenta o tamanho médio das gotas. A formulação pode estar no limite da estabilidade.
- Ausência de Separação Visível: Este é o resultado desejado. Indica que a formulação possui uma boa estabilidade cinética sob a força da gravidade por, no mínimo, 24 horas.
5.2 A Matriz de Diagnóstico de Instabilidade
A tabela a seguir funciona como uma ferramenta de diagnóstico. Ela correlaciona as observações visuais específicas com o mecanismo de instabilidade mais provável e as potenciais causas-raiz na formulação. Esta matriz eleva o analista de um mero observador a um solucionador de problemas, fornecendo uma hipótese testável sobre o que precisa ser corrigido na formulação.
| Observação Visual (Sintoma) | Mecanismo Provável (Diagnóstico) | Causas Raízes Potenciais (Prescrição) |
|---|---|---|
| Camada branca/opaca no topo; fase principal permanece homogênea. | Cremeação (sem coalescência significativa) | Diferença de densidade inerente; Viscosidade da fase contínua insuficiente para retardar a subida das gotas. |
| Camada de óleo transparente/livre no topo. | Coalescência seguida de Cremeação | Falha do sistema emulsificante (tipo/concentração inadequada); Filme interfacial fraco; EHL (Equilíbrio Hidrofílico-Lipofílico) incorreto. |
| Sedimento compacto e denso no fundo; líquido sobrenadante claro. | Sedimentação | Partículas da fase dispersa muito densas ou grandes; Viscosidade da fase contínua insuficiente para suportar as partículas. |
| Agregados visíveis (flocos) suspensos ou sedimentando lentamente. | Floculação | Potencial Zeta baixo (forças de repulsão eletrostática insuficientes); Concentração inadequada de eletrólitos; "Bridging" (ponte) por polímeros. |
| Gotículas de óleo aderidas às paredes de vidro da proveta. | Coalescência na interface | Emulsificante inadequado que não previne a fusão das gotas ao colidirem com uma superfície. |
| Separação de uma pequena camada de líquido aquoso e claro no fundo (típico em emulsões O/A). | Sinérese ("Weeping") | Rede de gel do espessante (polímero) contraindo e expulsando a fase contínua (água); Incompatibilidade entre polímeros na formulação. |
Estabelecimento de Critérios de Aceitação e Ações Corretivas
A etapa final do processo é tomar uma decisão com base nos resultados. Isso envolve comparar os resultados com critérios de aceitação pré-definidos e, se necessário, iniciar ações corretivas para resolver os problemas de instabilidade diagnosticados.
6.1 Definindo Limites de Especificação
Não existe um critério universal de "aprovado/reprovado" para o teste de decantação. Os limites de especificação, ou critérios de aceitação, devem ser definidos com base no tipo de produto, sua aplicação e a experiência do consumidor. A definição de "estabilidade" é dependente do contexto.
- Critério Rigoroso (ex: produtos farmacêuticos injetáveis, emulsões finas para cosméticos de luxo): Nenhuma separação visível em 24 horas. A especificação seria: % Separação = 0%. Qualquer sinal de instabilidade é inaceitável por razões de segurança e desempenho.
- Critério Moderado (ex: loções corporais, molhos para salada): Nenhuma separação de fases de óleo/água é permitida. No entanto, uma leve sinérese (separação de < 1% de fase aquosa clara) que se reincorpora facilmente com agitação pode ser considerada aceitável, pois não compromete a experiência do usuário.
- Critério Flexível (ex: suspensões que indicam "agite bem antes de usar", como tintas ou alguns medicamentos orais): A formação de uma camada de sedimento é esperada e aceitável. O critério de reprovação aqui não seria a presença de sedimento, mas sim a formação de um sedimento compacto e duro ("caking") que não se redispersa facilmente após agitação.
A definição desses critérios deve ser uma decisão consciente, baseada no conhecimento do produto e do seu uso final.
6.2 Guia de Ações Corretivas Baseado no Diagnóstico
Uma vez que a causa da instabilidade foi diagnosticada usando a matriz da Seção 5, ações corretivas direcionadas podem ser tomadas para reformular o produto:
Diagnósticos e Ações
6.3 Conclusão: O Teste de 24h como Parte de um Ciclo de Melhoria Contínua
O teste de decantação acelerado de 24 horas, quando executado e interpretado corretamente, é muito mais do que um simples teste de controle de qualidade. É uma ferramenta de diagnóstico poderosa e eficiente que se encaixa perfeitamente no ciclo de desenvolvimento de produtos: formular → testar → diagnosticar → reformular. Ele fornece um feedback rápido e direcionado que permite aos cientistas e técnicos tomar decisões baseadas em evidências, acelerando o desenvolvimento de produtos robustos, estáveis e de alta qualidade. A sua simplicidade de execução, combinada com a profundidade de informação que pode fornecer, torna-o um procedimento indispensável em qualquer laboratório que trabalhe com sistemas dispersos.
Referências citadas
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- Emulsão: o que é, para que serve, tipos, resumo - Brasil Escola, https://brasilescola.uol.com.br/quimica/emulsao.htm
- Decantação e Diluição | PDF | Líquidos | Química - Scribd, https://pt.scribd.com/document/856647905/Decantacao-e-Diluicao
- Lei de Stokes: Fundamentos, Aplicações e Cálculos na Mecânica dos Fluidos - Dafratec, https://dafratec.com/glossario/lei-de-stokes
- Lei de Stokes Definição, força de atrito, fórmula - Flottweg SE, https://www.flottweg.com/pt/wiki/tecnologia-de-separacao/lei-de-stokes/
- ESTUDO DO EFEITO DA ÁGUA EM EMULSÕES DE PETRÓLEO - Portal ABPG, https://www.portalabpg.org.br/PDPetro/4/resumos/4PDPETRO_2_3_0080-1.pdf
- Floculação e Emulsão nas Indústrias de Tratamento de Água - PG Química, https://pgquimica.com.br/blog/floculacao-emulsao/
- Mecanismos de Desestabilização de Emulsões Quebra Da Emulsão | PDF - Scribd, https://de.scribd.com/document/678692773/p-73-91-PR-2023-2
- avaliação da eficiência de desemulsificantes utilizados na separação das fases de misturas de água e óleo. - EPQB / EQ / UFRJ, http://www.tpqb.eq.ufrj.br/download/desemulsificantes-utilizados-na-separacao-das-fases-de-misturas-de-agua-e-oleo.pdf
- Instabilidade na Formulação, https://formacion.acofarma.com/wp-content/uploads/2021/12/Inestabilidades-a-la-hora-de-formular-PT.pdf
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE OBTENÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DE EMULSÃO PARA CORREÇÃO DE ESCOAMENTO DE ÓLEO PESADO - RI/UFS, https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/5052/1/WOLNEY_LIMA_SILVA.pdf
- Redalyc.Estabilidade de emulsões: um estudo de caso envolvendo emulsionantes aniônico, catiônico e não-iônico, https://www.redalyc.org/pdf/470/47043482012.pdf
- Guia de Estabilidade de Produtos Cosméticos - Portal Gov.br, https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/cosmeticos/manuais-e-guias/guia-de-estabilidade-de-cosmeticos.pdf
- Pra que Serve o Teste de Estabilidade Cosmética? - Engenharia das Essências, https://www.engenhariadasessencias.com.br/blog/pra-que-serve-o-teste-de-estabilidade-cosmetica/
- Estabilidade de longa duração x Estabilidade acelerada - Valer Laboratórios, https://valerlaboratorios.com.br/estabilidade-longa-duracao-x-estabilidade-acelerada/
- Teste de estabilidade (prazo de validade) - NANOLAB, https://www.nano-lab.com.tr/pt/cosmticos-detergente/teste-de-estabilidade-prazo-de-validade
- Protocolo para ensaios físico-químicos de estabilidade de fitocosméticos, https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/c3241dc9-5c79-430f-acba-b6c84700fd2c/content
- Você conhece os Testes de Prateleira, Compatibilidade e Transporte? - Farmacon Jr, https://farmaconjr.com/testes-de-prateleira-compatibilidade-e-transporte/
- Teste de Prateleira Direto: Avaliação Real da Vida Útil dos Produtos - Lessen Laboratórios, https://www.lessenlaboratorios.com.br/blog/16512-teste-de-prateleira-direto-avaliacao-real-da-vida-util-dos-produtos
- #06 Estabilidade de Emulsão - Análises Físico Químicas - YouTube, https://www.youtube.com/watch?v=fZoYj-zpb5E
- GUIA PARA A REALIZAO DE ESTUDOS DE ESTABILIDADE DE PRODUTOS SANEANTES - ABRASSAM.org.br, https://abrassam.org.br/legislacao/guia_estabilidade.pdf
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- Testes de estabilidade farmacêutica - SGS, https://www.sgs.com/pt-mz/service-groups/estabilidade
- Desenvolvimento de emulsões óleo de oliva/água: avaliação da estabilidade física, https://rcfba.fcfar.unesp.br/index.php/ojs/article/view/424




